Algumas tretas são necessárias

24/03/2017

arte por: Henrietta Harris
Eis um pequeno fato sobre mim: não gosto de treta.

Odeio gente brigando perto de mim. Quando a discussão começa, eu sou essa pessoinha. Porém, tenho refletido muito sobre minha postura diante das mudanças que o país vem sofrendo - ou sobre qualquer outra notícia, especialmente no âmbito da política - e a relação que isso tem com a minha paz interior, e descobri que essas duas coisas não são tão incompatíveis como eu achava.

Buscar ser uma pessoa equilibrada e tranquila não te impede de se informar sobre o que acontece no mundo e fazer o que você acha certo. Ao meu ver, é sabendo o que foi feito antes que a gente decide se vai continuar fazendo o mesmo ou se parte pra outro caminho. É muito importante a gente deixar pautado no nosso eu-interior o que a gente acha bom ou ruim e, sempre que for necessário, refletir se é válido quebrar alguns paradigmas e pensar de outra maneira. 

Debatemos muito no jornalismo a questão da imparcialidade/neutralidade da imprensa. Partindo da ideia - que pra mim é óbvia - de que não existe objetividade perfeita no modo como as notícias são transmitidas, acredito que é muito necessário que os veículos se posicionem diante dos eventos políticos do país e do mundo. Assim, o leitor terá acesso à notícia já sabendo da visão daquele jornal, revista ou qualquer outro meio de comunicação, e poderá se informar a partir de vários pontos de vista sobre um único fato.

Da mesma forma ocorre com a gente. Formular opiniões e apresentá-las nas ocasiões que você considerar convenientes não significa "ter aquela velha opinião formada sobre tudo", mas mostrar pras pessoas com quem você se relaciona o ser humano que você é e o que você quer para a sua vida. Não é só porque algumas opiniões suas talvez um dia mudem que você vai fingir que elas não existem e vestir a capa-da-falsa-neutralidade. 

Costumamos nos relacionar melhor com pessoas que pensam parecido com a gente e não acho isso anormal - muito pelo contrário, faz parte da famigerada busca por paz interior. É extremamente plausível debater com quem pensa diferente e, como eu disse mais acima, mudar algumas opiniões, mas a gente sabe muito bem o quão difícil é se relacionar com quem tem opiniões que soam absurdas pra gente. Eu, por exemplo, cortei laços com algumas pessoas extremamente homofóbicas, tendo em vista que não compactuo com essa ideologia.

E é justamente aí que eu quero chegar. Não tem problema nenhum você selecionar quem você quer perto de você, muito menos formular opiniões a respeito de algum acontecimento, ainda que elas mudem um dia. Mesmo que você não passe sua visão adiante de forma direta, isso provavelmente vai acontecer de maneira indireta. Nossas opiniões e visões de mundo são a base das pessoas que somos e são elas que direcionam nossas ações, porque as atitudes que tomamos não são fruto do vácuo. Mesmo inconscientemente, trazemos à tona os valores que acreditamos. 

Talvez você se afaste de algumas pessoas e, em outros momentos, serão elas que não vão mais querer você por perto. Para quê se esforçar tanto para que isso não ocorra? Será que é tão necessário assim manter pessoas que muitas vezes não te acrescentam nada só para não parecer uma pessoa rebelde, injusta, malvada? Por que simplesmente não parar com essa mania de parecer bonzinho? Se você não para por um segundo pra refletir sobre isso, a pessoa vem, caga na sua cabeça e você fica imóvel, pedindo desculpas por estar ali naquele momento. Lembre-se: vale mais a pena ter poucos amigos do que trezentas pessoas que só te fazem se sentir mal.   

Não precisamos agradar a todos e nem se a gente quisesse isso seria possível. Pois então que a gente perca o medo de ser contrariado. Isso não se trata de uma disputa de argumentos bem elaborados. Se eventualmente alguém te replicar com uma opinião que você não consegue treplicar, basta refletir a respeito. Talvez aquela opinião mude o que você pensa ou simplesmente surja algum argumento que vai te fazer permanecer pensando daquela mesma forma. O que não dá, ao meu ver, é preferir estar alheio ao que ocorre como se essas mudanças não te atingissem, por medo de entrar em discussões você não saiba ganhar

Não é sobre ganhar ou perder. É sobre não ter medo de ser quem você é.

Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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