O medo de se posicionar

14/03/2016

Em um mundo onde a internet encurta distâncias e agiliza a troca de informações, torna-se cada vez mais difícil filtrar o que entra pelos nossos ouvidos - ou pelos olhos - e formular de verdade um ponto de vista interessante. É bom saber que por conta dessa mistura de ideias constante que a rede nos proporciona, muitos preconceitos vem sendo debatidos e piadinhas que fazíamos antes, sem pensar nas consequências, já começaram a perder a graça. Dizem que o mundo tá ficando chato. Pra mim, ele tá é tentando ser legal pra parcela de pessoas que sempre ficou com a verdadeira parte chata.

No meio disso, existe um medo. O medo de expor as nossas opiniões - e até mesmo, o medo de formulá-las. Ficamos agoniados com essa sensação de incapacidade. Sabe aquela ideiazinha que a gente pensa em compartilhar, mas sabe que tem alguém que vai pensar que é indireta? Ou sei lá, aquele textão que a gente sonha em publicar, mas fica com medo de ouvir críticas pesadas e não saber rebater? 

Sabe o que nos deixa assim? A vontade de agradar todo mundo. Em alguns momentos, a gente fica em cima do muro ou simplesmente não para pra pensar muito sobre determinado assunto, por que não tá afim de se estressar. Dependendo do dia, eu realmente só quero tomar meu toddy e ficar assistindo artesanato na TV Aparecida, mas é importante que a gente saiba que não é errado dizer o que pensamos, seja dentro ou fora da internet. 

O que fez eu me sentir mais à vontade pra expor o que penso com mais intensidade foi uma observação que fiz, há um tempo. Não é novidade ver grandes debates (se é que podemos chamar alguns de debates, né?) em páginas do Facebook, quando tem uma postagem que acarreta grande divergência de ideias. Por exemplo, um post sobre a legalização do aborto ou o impeachment da presidenta. Porém, se você abre uma publicação sobre "decoração de home offices", vai encontrar lá as mesmas tretas de sempre. E essas briguinhas vão longe: em postagem de ovo de páscoa caseiro, em quote de filme, em trecho de livro e até mesmo em coisas que você pensa "mano, não tem como criar um debate sobre isso", como um especial sobre aves migratórias na página do Animal Planet.

Em meio a milhares de pessoas que adoram dar opiniões rasas - assunto para um próximo texto - e passar metade do dia ofendendo os outros na internet, existe você, com medo de se tornar um deles. Entretanto, pensa comigo: se você teve uma ideia sobre algum assunto, pesquisou direitinho sobre ele, pediu opinião de quem passa por ele, ouviu ideias contrárias e não se deu por satisfeito, por que se privar de expor seu pensamento se achar necessário? Não dá mais pra gente se esconder e deixar nossas ideias na gaveta da escrivaninha, onde ninguém vai encontrar, só pra que o nosso amigo homofóbico nos admire tanto quanto a amiga lésbica. 

As pessoas tem que gostar de você pelo o que você é e não pelo o que quer parecer. Jout Jout disse, em vídeo recente, que tinha medo de assustar as pessoas, caso "levantasse bandeira" de algum movimento. Certo dia, porém, ela perguntou a si mesma "quem são essas pessoas que eu tô com medo de assustar? Será mesmo que elas não precisam - ou não podem/devem - ser assustadas?". Isso me fez perder o medo de me posicionar diante do que eu acho necessário e importante. E, definitivamente, me fez mais forte.

Não tenha medo de falar. Não deixem que te calem. Não permita que te inibam. Ouça, pesquise, se envolva, mas diga o que sente, principalmente se vai fazer um benzinho pra alguém.

Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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