Todos os bichos são iguais...

1 de outubro de 2014

... mas alguns são mais iguais que outros.

(ilustração retirada deste site)

Semana passada, na aula de Sociologia, minha parceira de cafés-pós-aula me emprestou um livro que eu tava com vontade de ler há bastante tempo. Achei que fosse demorar pra terminar, já que tô com 3 livros sendo lidos há meses, mas a leitura foi muito fácil e rápida. Alguns consideram essa obra apropriada até mesmo para crianças, porque a narrativa é realmente bem tranquila de acompanhar.

ACONTECE QUE os bichos de uma fazenda se emputecem com a realidade que eles vivem e quebram o sistema até então vigente. Influenciados por um porco velho e gordão que tinha esses ideais de revolução, o Major, seus herdeiros Napoleão e Bola de Neve assumem a liderança dessa mudança radical na vida dos animaizinhos. 

Unidos pela vontade de mudar suas vidas e acabar com a exploração do fazendeiro Jones sobre eles, os bichos expulsam violentamente o cara da fazenda dele. Então, a fazenda passa a se chamar Granja dos Bichos, porque quem mandava ali agora eram eles. Vaquinha nenhuma seria ordenhada para servir estômagos humanos; galinha nenhuma teria que botar ovos para sustentar a pança de humano nenhum; animal algum seria sacrificado por não estar mais apto ao trabalho; a vida mudou!! Agora os animais estavam prontos para se organizarem numa nova sociedade, onde todos eram amigos e se respeitavam, trabalhando em prol do bem do grupo.

Para que houvesse uma boa convivência, foram estabelecidos sete mandamentos, dentre os quais a máxima da revolução: quatro patas bom, duas patas ruim. 

Só que o tempo foi passando e o poder subiu à cabeça de Napoleão e Bola de Neve. Durante a revolução, todos dormiam no mesmo lugar, dividiam os trabalhos direitinho entre si, se respeitavam da melhor maneira possível e tinham os mesmos direitos. Quando o novo sistema se fixou, os porcos-líderes começaram a contornar a situação, dizendo que por liderarem o bagulho, mereciam um pouquinho a mais, seja de horas de sono ou de conforto. E, de repente, começaram a surgir mudanças misteriosas nos sete mandamentos. No item "nenhum animal dormirá em cama", agora havia uma frase ao lado, da qual ninguém se recordava "... com lençóis". 


A gente vai notando, no decorrer da trama, que os líderes começam a criar certa rivalidade, marcada pela oposição de algumas ideias que cada um deles tinha. Nesse momento, bati os olhos num parágrafo e fiquei doida:

(...) Segundo Napoleão, o que os animais deveriam fazer era conseguir armas de fogo e instruir-se em seu emprego. Bola de Neve achava que deveriam enviar mais e mais pombos e provocar a rebelião entre os bichos das outras granjas"
Não sei se todo mundo lembra, mas em 1917 houve uma revolução muito foda na Rússia, que derrubou o último czar (imperador russo). Isso ocorreu porque as condições de vida dos trabalhadores russos nessa época era extremamente miserável. Muita gente morria de fome e a indústria russa era uma piada perto de potências como Inglaterra e França. Em 1789 acabava o governo absolutista francês, em 1776 os EUA ganhavam independência e até a Itália e a Alemanha já tinham garantido sua unificação, ainda que tardia, no século XIX. E, enquanto isso, a Rússia continuava zoadona, parecendo um grande campo feudal. 

Com a Revolução Russa, um tal de Kerenski entrou no lugar do czar, mas, pra falar a verdade, não mudou quase nhéca nenhuma. Daí, os revolucionários mais radicais, chamados de bolcheviques, tentaram pegar o poder pra eles e conseguiram, tendo como líder o Lênin. Durante o governo do Lênin, a Rússia se desenvolveu loucamente, tipo, loucamente mesmo. 

Algumas coisas importantes que o Lênin-honey fez:
- IMPLANTOU O SOCIALISMO;
- TIROU A RÚSSIA DA 1ª GUERRA MUNDIAL: cara, um país fodido economicamente e socialmente não pode estar em guerra nenhuma, ainda mais quando estamos falando da primeira guerra mundial, galera. 
- IMPLANTOU O NEP (Nova Política Econômica): Lênin era inteligente e sabia que extremismo não levaria a Rússia a lugar nenhum; refletindo sobre isso, apesar de ter implantado o socialismo, ele deu liberdade pro comércio, visando o crescimento da agricultura russa (que, se você for parar pra ver, é um princípio capitalista). 
- CRIOU A URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas)

Daí o Lênin morreu e o poder foi disputado por Stálin e Trotsky, que tinham algumas ideias opostas. Por exemplo, o Stálin queria que o socialismo fosse difundido primeiramente pela URSS pra só depois ser levado pro resto do mundo; já o Trótsky achava que a revolução socialista devia afetar o mundo todo logo no começo... e aí é que a Revolução dos Bichos entra. Vocês conseguem notar a comparação dos dois porcos líderes com esses dois caras, refletindo sobre essas ideias e aquele trecho que eu coloquei ali em cima? Pois é, cara: o George Orwell, autor do livro, utilizou uma história aparentemente inocente para fazer uma puta crítica ao STALINISMO, mesmo sendo comunista. 

A conclusão que cheguei ao ler A Revolução dos Bichos é que o problema não está no sistema, mas no ser humano. Dane-se se é capitalismo, socialismo, anarquismo, whatever, não acredito que o ser humano, na sua essência, seja bonzinho (a maioria, pelo menos). Quero dizer, observando a história ao estudar pro vestibular, eu percebi que em nenhum sistema houve realmente igualdade, porque sempre teve alguém querendo ter mais que o outro. Eu, pelo menos, não acredito que o Stálin comia do mesmo picles que o trabalhador da indústria. 


É justamente esse mal uso do poder que o George critica, mas muita gente diz que a crítica dele é ao comunismo. Não, velho, o cara era comunista. O problema é que o livro foi escrito em 1945. Essa data remete alguma coisa importante a vocês? O fim da Segunda Guerra, que tal? Época que os EUA viraram a grande potência mundial, mergulhados nos seus ideias capitalistas. Óbvio que, num momento como aquele, que iniciaria a disputa socialismo X capitalismo, os EUA, detendo uma obra tão foda como A Revolução dos Bichos, daria a interpretação que bem entendesse. KEEP CALM. 

Sugiro a leitura a todo mundo, como forma de reflexão sobre as relações sociais e políticas que nos rodeiam. É um livro fantástico, fácil, cheio de ironias e analogias incríveis que abriram minha mente pra esse assunto. Quando cheguei na última página e a história tava terminando, eu pensei "aff, vai acabar do nada", mas quando eu li a última frase, cara... Aaah, eu me arrepiei. 

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Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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