Memórias póstumas de um tal de Brás Cubas

15/08/2014

SENHORAS E SENHORES. O que trago aqui não é um estudo aprofundado da obra de Machado de Assis, mas sim a pequena experiência que tive com esse livro e um trecho que eu gostei bastante de ter lido.

Tive que ler essas tais memórias durante o high school  musical, porque ela estava dentro daquilo que chamam de 'leituras obrigatórias', o que eu acho BIZARRO. Preza-se por autores renomados, talvez por eles serem cobrados no vestibular, mas isso é estranho. Eu, como escritora amadora desde, sei lá, os meus 11 anos, não concordo com a obrigatoriedade dessas leituras. Se é pra fazer uma atividade sobre determinado livro, por que não sugerir outros autores? Não precisa ser John Green, veja bem... eu não me refiro à linguagem utilizada nessas obras, porque é legal as pessoas terem acesso às várias maneiras de se utilizar a Língua Portuguesa, mas porra - me desculpem pelo modo vulgar e inescrupuloso, oh, leitores - não existe só Clarice Lispector, Eça de Queiroz, Camões. Tem uma cambada de escritores, principalmente nacionais, que aguardam para serem citados e lidos. 


Eu só fui gostar de alguns livros depois que me formei na escola, em 2011. Antes disso eu tava muito mais preocupada em arranjar lanche dos amigos pra comer no intervalo do que em ler Memórias Póstumas. Olhem bem a minha cara aos 15 e vejam se eu aparento estar com vontade de ler algo assim:


Ok, voltemos. Parece que só depois que reli alguns livros foi que veio aquele feeling, sabe? Tem uns que eu continuo achando um porre, daqueles de detonar todo o muco do meu estômago no dia seguinte, mas tem outros que... DJ, põe um coro angelical aí por favor.


EIS UM FATO:
estou apaixonada por Memórias Póstumas de Brás Cubas

Na época que eu li, foi mais por medo de tirar nota vermelha do que por curiosidade. Agora que já tô com 20 anos nessa cara de 12, voltei a ler alguns trechos e meu coração disparou. Tudo culpa do meu professor de literatura do cursinho, que leu com taaanta vontade aqueles capítulos, que eu comecei a gostar da história. 


SOBRE O BRÁS HONEY CUBAS:

Mimadinho demais, desses que dá ranso de tão mimado. Quando era criança, ficava zoando os escravos - estamos falando do Rio de Janeiro do século XIX -, fazendo eles de cavalo quando lhe convinha. Sua família era muito preocupada em passar uma imagem que agregasse um grande valor ao sobrenome. Ainda jovem, se apaixonou por Marcela, uma prostituta, e essa é a parte do livro que eu mais gosto. Cego de amor pela Marcelinha, Brás Cubas torrou uma puta grana (não resisti à ironia, sorry) com jóias pra ela.

"MARCELA AMOU-ME DURANTE QUINZE MESES E ONZE CONTOS DE RÉIS [...]"

Quando o pai dele descobriu o que ele tava fazendo, ficou muito bravo. Tipo, muito bravo mesmo, sabe? Daí como bom pai que era, chegou pro filho e disse: estou indignado com tamanha façanha, meu herdeiro... como castigo, você vai pra Europa! 

SE LIGUEM NO RECADO: galera das Humanidades, já que o Ciência sem Fronteiras não nos quer, vamos torrar nosso dinheiro em jóias e dar pra alguma prostituta. Assim, basta aguardar que sejamos castigados da mesma maneira e, quem sabe, possamos desfrutar de um café da manhã com vista pra torre Eiffel... Machado de Assis disse, tá dito.

Daí o Brásinho enlouqueceu. Correu em círculos. Roeu as unhas tudinho. Quis levar a Marcela com ele, mas ela, mais fria do que o Jack no final de Titanic e lixando as unhas, disse que não iria. Ele ficou puto, quis enforcá-la com o cadarço do All Star, xingou ela de tudo quanto foi nome, gritou, enlouqueceu. Machadinho, conta aí pra gente:

[...] Ficando a sós, derramei todo o desespero de meu coração; disse-lhe que ela era um monstro, que jamais me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios, fazendo muitos gestos descompostos. Marcela deixara-se estar sentada, a estalar as unhas nos dentes, fria como um pedaço de mármore. Tive ímpetos de a estrangular, de a humilhar ao menos, subjugando-a a meus pés. Ia talvez fazê-lo; mas a acção trocou-se noutra; fui eu que me atirei aos pés dela, contricto e súplice; beijei-lhos, recordei aqueles meses da nossa felicidade solitária, repeti-lhe os nomes queridos de outro tempo, sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos dela, apertando-lhe muito as mãos; ofegante, desvairado, pedi-lhe com lágrimas que me não desamparasse... Marcela esteve alguns instantes a olhar para mim, calados ambos, até que brandamente me desviou e, com um ar enfastiado:
- Não me aborreça, disse.
HAHAHAHAHAHA, sério, na boa, quando o professor falou isso eu pensei: TÓÓÓMA, seu ridículo. Tem tudo o que quer, monta nos escravos, pensa que a mina tem que ficar ajoelhada aos pés dele e leva um fora desses. BEM FEITO, MERMÃO.

Bom, o Brás ficou arrasado, saiu pelas ruas desolado, andando sem rumo.[...] Ia mastigando o meu desespero, com uma espécie de gula mórbida; evocava os dias, as horas, os instantes de delírio, e ora me comprazia em crer que eles eram eternos, que tudo aquilo era um pesadelo, ora, enganando-me a mim mesmo, tentava rejeitá-los de mim, como um fardo inútil.

Até que parou numa joalheria. Daí viu um pente com PÁÁÁÁ três diamantes enormes e brilhantes. Com um dinheiro que não era dele, comprou a jóia e foi até a casa de Marcela. 

A moça, toda largada no sofá, vendo Faustão, com aquele copo do suco do almoço fazendo aniversário no chão da sala, estava deslumbrante: descabeladíssima, com aquele ar blasé que lhe estampava a cara, a alça do sutiã da Avon caindo pelo ombro e aquela cara de origami amassado. Quando viu o Brás entrando, fez a egípcia continuou vendo as Vídeo Cassetadas, mas quando olhou pro diamante... seus olhos brilharam. 

Se ela foi pra Europa? Só vão saber se lerem (ou se jogarem no google, ok). 


Eu até poderia falar do pouco que sei sobre a relação da obra com o Realismo e de todo aquele papo de o Machado de Assis conversar com o leitor, mas deixo isso procês pesquisarem na internet quando for necessário. Por aqui deixo apenas esse trecho da Marcela, que expliquei acima, e uma gratidão imensa ao professor Luiz Soares pela aula inspiradora de hoje, que me levou a ficar até 2:44 escrevendo esse texto.

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Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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