Eles não usam black-tie

15 de abril de 2014

Quando encontrei esse livro perdido lá na estante do Educafro, não me interessei pela leitura, pois não é um romance e sim uma peça. Dentro do meu preconceito literário, achei que seria chato ler um livro assim e deixei lá no canto.

Dia desses, porém, eu olhei aquela capinha branca e fina novamente e resolvi ler a sinopse. "Quer saber? Vou levar esse pra casa", pensei. E não me arrependi.


A história foi escrita em 1955, por Gianfrancesco Guarnieri, mas a edição que eu peguei é de 2010. Com apenas 102 páginas, a trama me envolveu de um jeito incrível, me chamando prum samba daqueles de fundo de quintal, com direito a instrumentos como baldes e cachinhas de fósforo. Me senti uma verdadeira Rita Baiana, do livro O cortiço, me requebrando toda dentro da minha viagem pelas páginas de "Eles não usam black-tie". 

Logo no começo, eu já dei risada lendo o que aconteceu com a Maria, uma das personagens. Começa assim:
ATO I
(Barraco de Romana. Mesa ao centro. Um pequeno fogueiro, cômoda, caixotes servem de bancos. Há apenas uma cadeira. Dois colchões onde dormem Chiquinho e Tião.)
QUADRO I

Maria (falando baixo, entre risos) - Pronto, lá se foi o sapato... Enterrei o pé na lama... [...]


Foi aí que eu percebi que eu ia AMAR o livro, pois são pouquíssimas as descrições, e eu sou apaixonada por diálogos. Não tem jeito de se perder durante a leitura, principalmente porque a linguagem das personagens é muito simples. Em vários momentos eu identifiquei meu jeito de falar do dia-a-dia presente em suas falas.
Tião - O jeito, nega, é casá logo...
Maria - Se tu quisé, eu fico feliz!
Tião - Ora, se quero. Marco o casamento amanhã mesmo!
Maria - Precisa ficá noivo antes...
Tião - Não dá... Depois começa a aparecer, vai dá bolo na tua casa. [...]

São poucos os cenários durante a obra, mas todas as cenas se passam no morro, onde vivem todas as personagens. A atenção se divide entre o casamento de Tião e Maria (que querem apressar logo o noivado devido a uma gravidez inesperada) e as greves dos operários (dentre os quais Otávio, pai de Tião), que é um assunto que ganhou uma repercussão muito grande no século XX. 

Não é um livro com começo, meio e fim, sabe? É como se o escritor tivesse passado um final de semana na casa da família de Tião e escrito o que vivenciou naqueles dias. Pra mim, livros assim são os mais realistas, porque, tal como na vida, a história de qualquer livro não termina quando a última página é virada.

Mesmo assim, as passagens da história são muito legais. Algumas carregam um pouco de sentimentalismo, mas a maioria sempre divertida, irônica, cotidiana, leve. 

Maria - E sem falá nas moças da fábrica de lã que tu namorou todas...
Tião - E nunca esquecendo a Brigitte Bardot que eu namorei três anos...
Maria - Convencido! [...]

A minha personagem favorita é a Romana, mãe de Tião. Gente, ela é a Rochelle TODINHA, sabem? (a mãe do Chris, do seriado Todo mundo odeia o Chris). Romana é a dona da casa, quem manda e desmanda, quem grita, quem faz barraco, quem dá bronca... 

Romana (entra esbaforida) - Mais um pra sofrê! A Cândida do 36 vai dá à luz!...
Otávio - O morro tá em festa, hoje...
Romana - Qual festa! A mulhé tá berrando que nem uma bezerra. Pra mim é mais que um. Aquilo é gêmeo no mínimo!
João - Então isso não é motivo pra festa, D. Romana?
Romana - Pra tu pode sê, que não vai tê que sustentá... Eu sou que nem japonês: morreu faz festa, nasceu desata a chorá!
João - Assim, também não...
Maria - Ela tá precisando de ajuda.
Romana - O mulherio tá todo lá. E depois, eu ensinei uma simpatia que é tiro e queda. Num dou mais duas horas e os bichinhos vão nascê que nem rolha de champanhe!



Sabe, gente, às vezes a galera só busca os livros que tão sendo mais comentados no momento. Eu sou uma dessas pessoas que fica muito curiosa pra ler o que as pessoas tão comentando, mas eu aprendi a dar valor a qualquer tipo de livro. Não vale à pena torrar o salário inteiro na livraria e ficar acumulando 3 livros iguais com capas diferentes. Por que não comprar outro livro? Ou então, ir a uma biblioteca, pegar emprestado, sei lá, são tantas opções! 

Eu amo John Green e quero ler várias histórias que vem sendo super resenhadas atualmente, mas é necessário que a gente aprenda a dar valor ao que está próximo de nós. Vamos apertar o pause e ler o que a gente tem por perto antes de sair num consumismo desenfreado pelas livrarias, que tal? Nego vive falando mal das It Girls, mas só pensa em ganhar cada vez mais livros pra lotar a estante e mostrar no blog. Já falei sobre isso aqui e continuo defendendo essa opinião. 

Vou perguntar lá no Educafro se eles liberam um exemplar de "Eles não usam black-tie" pra eu sortear aqui. Vocês iam querer participar?

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Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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